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03

Operação Cavalo de Troia (e não é o grego)

Durante alguns anos eu fiquei travado em minhas leituras por lazer, pois sempre estava preso às leituras técnicas da faculdade ou para acrescentar em algo nos conhecimentos da minha área, depois de formado. Era uma sensação de que “não deveria perder meu tempo”, ou melhor, “deveria aproveitar melhor o meu tempo” com leituras de livros que me acrescentariam em algo para as minhas atividades profissionais. Mas, para a minha alegria, consegui me libertar dessa ideia tosca e entendi que qualquer leitura, mesmo aquela só para passar o tempo (mesmo que pouco), é capaz de acrescentar uma bagagem cultural gigantesca em sua cabeça, que certamente contribuirão nas atividades profissionais e sociais. Aliás, a própria leitura ‘por lazer’ o incentiva a ler outros livros, criando um hábito. Parece óbvio, né? Mas eu acredito que há outras pessoas que passam pelo mesmo pensamento que eu tinha e também precisam ser “libertas”! Acho que é o mal da pressa e de correr atrás da carreira profissional.

Pois bem, esse ano decidi mudar meus hábitos e me dediquei a novos livros. Ainda foram poucos, mas o suficiente para criar em mim o hábito prazeroso de ler. Aquele que te faz sentir órfão dos personagens quando termina uma leitura e já quer logo pegar outro livro. Estou exatamente nessa fase de transição de livros, pois acabei de terminar o Volume 1 da impressionante série Cavalo de Troia, do escritor e jornalista (pleonasmo?) espanhol, J.J. Benitez, do qual quero fazer uma pequena resenha e, quem sabe, o estimular a leitura do mesmo ou te dar um insight, como eu tive, de começar a ler pelo simples prazer.

Projeto Cavalo de Troia – Do que se trata

Vou tentar manter algo superficial, me coçando de vontade de soltar spoilers. Mas evitarei ao máximo. A história (com H mesmo) se trata de um grupo de militares da força aérea norte americana (USAF) que, em clima de consipiração e documentos ultra-secretos, desenvolveram tecnologia para a reversão da matéria, descobrindo o swivel ou, antimatéria. Metafísicas, explicações e rodapés técnicos a parte, isso quer dizer que foi descoberta a capacidade de viagens de longuíssimas distância no espaço e viagens no tempo, passado ou futuro. Pois bem: dentre algumas opções de datas, por terem dados mais precisos, resolveram viajar para a época de Cristo e, no primeiro volume, necessariamente na semana da paixão de Cristo. O protagonista, chamado somente por “Major” e codinome Jasão, se insere no contexto social de Cristo, sendo testemunha e, por vezes, personagem coadjuvante de fatos relatados nos evangelhos.

O fascinante do livro é que, de acordo com o autor, é um fato real, encoberto por conspirações do governo norte americano, que não quis tornar público o fato. Benitez, jornalista e protagonista dos primeiros capítulos do livro, teria tido acesso ao diário de bordo do Major, que relata com detalhes sobre a “Grande Viagem”. Claro, tudo bem que eu não acredito nisso, mas o autor tem uma criatividade e capacidade de argumentação incrível, que te faz pensar em como ele conseguiu, sozinho, criar tudo aquilo. Só lendo para entender isso que digo.

Dado à minha curiosidade, me adiantei um pouco na sinopse do volume 3, em que o autor reafirma “que os documentos realmente existem”, que ele não possui tal criatividade e que o o coração do leitor é que deve dizer se acredita ou não. Contudo, uma consideração: há mais de cem livros apócrifos que falam sobre a vida de Cristo, inclusive sobre sua infância. Esses livros, ao contrário dos canônicos (os conhecidos 66 da Bíblia Sagrada), podem servir de embasamento histórico e social da época, além de acrescentarem passagens desconhecidas e falas de Cristo, que nitidamente foram estudados e incorporados a série. Obviamente, não pertencem a bíblia por inúmeros motivos.

Se tiver interesse sobre os livros apócrifos e entender porque não foram incorporados à Bíblia, leia esse post sobre os apócrifos no blog do Prof. Luis Cavalcante e sobre a composição da Bíblia, no blog do Maicon Custódio. Portanto, quando Benitez afirma que os documentos realmente existem, creio que ele omite que os documentos se referem aos apócrifos, e não aos diários de bordo do Major.

Minha opinião

JJ Benitez consegue incomodar e manter a leitura aos picos, apesar de longos trechos enfadonhos – se não estiver determinado a ler, pode desistir devido a tantos dados técnicos, considerando que o primeiro volume possui 619 páginas (Editora Planeta do Brasil). Mas, garanto: a leitura vale a pena. Por se tratar de um experimento científico, o Major obrigatoriamente faz descrições detalhadas de tudo o que observa, o que por vezes tira a fluidez da leitura – até mesmo velocidade e direção do vento, ou descrições mínimas de tudo ao redor. Porém, essas inúmeras observações minimalistas servem para nos ensinar muito sobre o contexto histórico e social de Jersusalém dos anos 30. E, todas essas observações compensam para a sexta-feira da paixão, ou seja, da captura até a morte de Cristo na cruz que, sinceramente, deixam o filme “A Paixão de Cristo” no chinelo. Tenho convicção que Mel Gibson se inspirou nos relatos do livro (e nos Evangelhos, é óbvio), para desenvolver as cenas de tortura de Cristo e posterior crucificação.

JJ Benitez, autor da série Cavalo de Troia

A leitura do livro consegue te deixar empolgado, enfadado e revoltado ao mesmo tempo. Explico: apesar de ser uma ficção, porque o autor defende tanto a ideia de que é uma história real, ele acaba “brincando” com pontos importantes do cristianismo. Sou cristão e, é claro, entendo que é uma obra de ficção. Porém, acaba tirando um pouco da divindade de Cristo e do próprio Deus em alguns trechos (como no Gestêmani, crucificação, etc – sem spoliers), o que podem incomodar um pouco a quem não tiver capacidade de discernir que se trata de uma obra. Mas acho que o incômodo se deve ao fato da leitura ser muito envolvente e convincente, fazendo com que, ao distanciar em certos momentos dos relatos bíblicos, dá uma certa sensação de frustração (a vontade era de que a Operação Cavalo de Troia realmente tivesse acontecido). Enfim, em certos momentos ele tenta dar explicações terrenas para fatos divinos. Mas, é importante lembrar que o físico e médico Major foi selecionado para a viagem justamente pelo seu ceticismo, o que lhe compreende a necessidade de explicar tudo do ponto de vista técnico/científico.

De qualquer maneira, JJ Benitez realmente apresenta um Jesus Cristo mais “humano”, porém, bem próximo aos relatos dos evangelhos. Em diversos trechos, relata um Jesus Cristo bem humorado, sorridente, que por vezes brincava de pique com as crianças, um sujeito muito carismático. Ele consegue tratar um Jesus puro e simples, tirando da figura histórica o peso que as religiões e moralismos criaram em torno dele, e que fizeram Dele um Messias distante, vingativo e punidor. Ou seja: na minha opinião, é um relato fiel do Jesus bíblico que eu acredito; esse que está bem próximo e fácil de alcançar.

Jerusalém Antiga

Como eu disse, eu sou Cristão e, por se tratar uma leitura baseada nos Evangelhos, acredito que isso torna a leitura mais interessante, justamente porque se tem a capacidade de fazer os paralelos entre os relatos bíblicos e os relatos descritos por Benitez. Porém, mesmo a quem não conhece os evangelhos e não é Cristão, a leitura é de igual modo interessante, mas acredito que perderá um pouco da empolgação por não conhecer a “versão original.” Como diz um colega, que leu o livro: “eu nunca mais consegui assistir a missa do mesmo jeito, depois que vi que Jesus brincava de pique com as criancas”. Isso é fato: o livro te leva a uma introspecção e aproximação mais fácil a Cristo.

Enfim, considerando que é uma ficção embasada em um Jesus histórico e bíblico, Benitez é capaz de dar pitadas de suspense e supresas em um história que já é contada aos quatro cantos do mundo, há mais ou menos dois mil anos.

A série conta com oito volumes (o primeiro é o maior) e o nono está para sair, de acordo com o próprio Benitez. Em breve começo a leitura do segundo.

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8 comentários

  1. DIEGO CESAR RIBEIROdisse:

    Muito bacana, Marquinhos! Vou atrás desta série de livros para mim. Obrigado pela dica de leitura. Abração!

  2. Thiago Rodriguesdisse:

    Legal Marcus!
    Já tive muita curiosidade e até indiquei esta série, mas ainda não li.
    Mas hei de ler, rsrs

    Valeu pela ótima indicação!

    1. Marcus Lemosdisse:

      Cara, tava há muito tempo doido pra ler e lembro que foi indicação sua, lá na república. Desde então fiquei sedento pra ler! rs Por sorte, o Subarino fez há pouco tempo uma promoção muito boa, em que adquiri de uma vez os quatro primeiro volumes. Depois de ler tudo, parto pros outros rs.

  3. Filipe Nieldisse:

    Cara, que doidera… li essa série (até o 5) durante (literalmente) o meu terceiro ano do ensino médio. Curti muito… preciso voltar a colocar os livros de teologia para descansar e ler umas coisas desse tipo de vez em quando.

    1. Marcus Lemosdisse:

      Obrigado pelo seu comentário, Filipe! Fico honrado em ter vc por aqui, pois o “conheço” por meio do seu blog. Foi com muita alegria que vi seu nome nos comentários.

      A obra é fantástica e, do tempo em que escrevi este post, já terminei de ler o segundo volume, igualmente fascinante. Talvez concorde que é um pouco mais viajado, mas é de igual modo empolgante.

      Por ser uma série muito extensa, resolvi intercalar a leitura com outros livros e séries (se não só leria Cavalo de Troia por um bom tempo rs) Sei que é teologicamente totalmente distorcida, mas comecei a ler a série Deixados para Trás e terminei o primeiro volume. Cara, é impressionante o baque que dá vc sair de uma leitura como Cavalo de Troia e cair numa leitura como a dessa série! Deixados para Trás se tornou algo totalmente sem graça perto da obra do Benitez rs. Como eu brinquei com uns amigos, eu sou mais propenso a acreditar no que Benitez diz do que o Lahaye afirma.

      Velho, vc leu 5 volumes só no terceiro ano? Tava viciado em leitura, heim?!

      1. Filipe Nieldisse:

        Oi Marcus, poxa, obrigado por responder. Não tenho a menor dúvida de que Benitez escreve bem melhor que o Lahaye, eu já li vários da série deixados para trás, achei interessante, mas nada mais do que isso.

        Tenho que confessar que a série do Benitez vai ficando “menos boa” a cada novo volume, mas ainda assim considero que foi uma leitura proveitosa.

        Li os 5 volumes no terceiro ano… quando disse literalmente quis dizer que li durante as aulas… tenho que confessar, nunca fui um aluno padrão que aprendia as coisas dentro do modelo que era proposto.

        1. Marcus Lemosdisse:

          Aff, entendi o literalmente kkkkk

          Ouvi dizer isso mesmo… que a série vai ficando menos interessante a medida que ela caminha. E, ainda, no próprio site do Benitez ele anunciou em julho que o nono está finalizado! Veremos…

          Hm, e sobre o Deixados para Trás, eu fiz uma breve e superfical resenha a respeito no Skoob (conhece?). Se interessar, o link é http://www.skoob.com.br/estante/resenha/11214629

  4. augusto cruzdisse:

    foi o melhor livro que já li na vida

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