Mídias Sociais B2C (parte #2): O caso do perfil falso da Presidência.
Dentre os usos possíveis para as mídias sociais, quero reportar aqui o caso do perfil falso no Twitter da Presidência do Brasil. Hoje, o Davi Rocha, autor do blog HighPop, lançou uma matéria sobre o episódio e combinei com ele que eu inseriria esse conteúdo aqui.
No dia 13 de março, surgiu no Twitter um novo perfil, do qual muitos acreditaram ser da própria Presidência do Brasil. Nele, foi postado a agenda do Presidente e notícias que saíram em veículos conhecidos, como a CBN.
A ação gerou um rebuliço, que atingiu vários blogs, a Folha Online, o UOL e até mesmo a Assessoria da Presidência. Orientado por uma procuradora a se retratar publicamente, assim o fiz no Twitter e pedi espaço em blogs para que pudesse fazer minhas considerações e me retratar.
Por que essa ação foi feita? Por que foi escolhido logo a Presidência da República?
Um dia antes da criação do perfil, vi a notícia de que a Presidência de Portugal havia criado um perfil oficial, também no Twitter, como um veículo de comunicação. Diversos países, a exemplo de EUA, próprio Portugal e Reino Unido o vêem com bons olhos e o utilizam. No Brasil, somente o Ministério da Cultura o utiliza. Por que, então, a nossa presidência não o vê com bons olhos?
Todas as novas tecnologias surgidas, desde a lâmpada elétrica, passaram pela Casa Branca, nos EUA, antes de chegar a outros países. E com as tecnologias de comunicação e mídias sociais não foi diferente. A campanha do Obama e sua gestão recebem destaques devido a utilização de diversas ferramentas sociais disponíveis na Internet, como o próprio Twitter, MySpace, Facebook, Youtube e blog oficial. Em sua campanha presidencial, boa parte dos US$750 milhões recebidos em doações, mais de três vezes o que recebeu o concorrente McCain, foram graças a uma eficaz utilização dessas mídias. De acordo com a Pew Internet & American Life, 51% da população norte-americana entrevistada espera por uma comunicação online direta com a presidência. E, de fato, a aproximação entre governo e cidadãos ocorre de maneira mais aberta e transparente, quando dado voz a população.
Há pesquisas que apontam que as redes sociais, blogs, conversas por mensagens instantâneas e e-mails são mais confiáveis do que meios tradicionais de comunicação, como a TV e o rádio, meios, aliás, mais utilizados pelo nosso Governo Federal. Meios, esses, unilaterais, dos quais a população tem pouca abertura para o diálogo direto. Meios, pelos quais, não permitem perceber a reação espontânea da população sobre as ações do Governo Federal. Meio que não permite ouvir opiniões antes de agir. Meio impositivo. E se isso é fato, por que o Brasil, país no qual há mais de 40 milhões de usuários de Internet e que 80% dessa população participa de alguma rede social virtual , país que está em quarto lugar em uso do Twitter, ainda possui uma comunicação digital embasada somente em seus sites institucionais? Nada 2.0…
Recentemente foi encerrada uma licitação feita pela SECOM para a contratação de uma agência de Comunicação, no qual foi escolhido a TV1 Comunicação e Marketing para trabalhar a comunicação digital no país. Estou confiante. Esperemos para que não seja somente por meio de sites institucionais e formulários de Fale Conosco.
Resultados
Em termos de números, o resultado foi surpeendente: Em quatro horas, mais de 400 pessoas passaram a seguir o perfil e no final de semana seguinte ultrapassou os 500; centenas de comentários no Twitter (monitorados pelo search.twitter.com); posts e comentários em diversos blogs. A maior surpresa: uma busca no Google coroou a ação com uma chamada para o assunto na primeira página do Folha Online e uma matéria no UOL Tecnologias, com respostas até mesmo do Assessor de Comunicação da Presidência. No dia 17 de março a SECOM publicou uma nota oficial em seu site, dizendo ser falso o perfil, ou seja, quatro dias depois de ter admitido no perfil que se tratava de um fake.
Agora, por mais que uma mudança de postura por parte do governo possa não acontecer, o fato da SECOM ser questionada se era real ou não o perfil e ter lançado uma nota oficial em seu site já indica que eles foram atingidos. Possivelmente, espero, tenham exnergado o potencial de uma mídia social.
Lições extraidas
O poder da ação viral é indiscutível, principalmente quando o solvente é a Internet. Não vou entrar no mérito de ter utilizado um perfil falso, mas fato é: o assunto rendeu porque a população, principalmente a jovem, tem sede de que haja uma possibilidade de participação nas mídias sociais e assim ganhar voz. Deixam de ser somente ouvintes do que diz o nosso governo. O assunto Twitter está em alta e, aliado aos gadgets do recém eleito Obama, formam uma fórmula de alta relevância.
Mesmo depois de sair em blogs, UOL e Folha Online, o número de seguidores não parou de subir, mesmo que em um ritmo mais lento. O interessante é que, mesmo sabendo do perfil fake, vários usuários apoiram a iniciativa e demonstram apoio para que não saisse da rede, na esperança de que o Governo Federal crie um perfil verdadeiro. Importante salientar que o Twitter é apenas uma ferramenta entre várias, que utilizada em conjunto com outras e com bom planejamento, podem obter resultados excelentes, além de ganhar a adesão de muitos brasileiros.
Riscos
Existiram, mas incialmente não percebi esse risco, somente depois que tomou uma proporção maior. Contudo, não sofri qualquer tipo de ameaça judicial e fui orientado educadamente por uma profissional influente da área jurídica a me retratar e eliminar o perfil. Na verdade, eu mesmo procurei me informar sobre os meus riscos antes de falar. Minha idéia era a de publicar aqui logo em seguida, mas achei melhor não fazer isso, devido às incertezas.
Mas falando em riscos, já li, também, que temos que ser ousados e que o empreendedor de sucesso é aquele que assume riscos, tem consciência dos inimigos que fará e quebra algumas regras. Meu objetivo foi ousado e tive que me arriscar um pouco.
Em termos proporcionais, a ação foi muito pequena. Foi literalmente uma ação viral caseira mesmo. Mas foi o suficiente para atingir o Assessor de Comunicação da Presidência, virar tema do Twitter para muita gente, virar tema de vários posts em blogs, sair na página inicial do Folha Online e matéria no UOL Tecnologias. Ou seja: foi gerado um pequeno rebuliço. Pouca gente ficou sabendo, até porque até então (antes da matéria na Istoé e Fantástico) “pouca” gente sabe o que é o Twitter.
Oi, Marcus! Do ponto de vista da comunicação institucional, vc deu um “sacode” na SECOM. Muitos assessores de imprensa torcem o nariz para as redes sociais, mas esquecem que é possível tem um alcance muito maior e mais eficaz, se trabalhado da maneira correta. Não entendo muito de leis, mas acredito que a SECOM deveria é te agradecer por criar um perfil falso e distribuir informações oficiais de graça pela rede. Lembro de ter lido uma matéria na época sobre o caso, mas não me toquei que vc era o cara que tinha criado o perfil fake no Twitter. Mais legal ainda é você admitir isso e mostrar por A mais B a importância de não só a assessoria da presidência, mas de todos os profissionais repensarem as suas ações de divulgação também nas redes sociais.
Abraço,
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