Mídia Social para a Mobilização Social

Dois grandes acontecimentos têm tomado conta de boa parte dos noticiários, que ferem o orgulho e geram grande indignação em pessoas normais. O primeiro caso a que me refiro é dos protestos contra o suposto resultado das eleições no Irã, que tem sido enfrentado com grande violência e 11 (até agora) mortes; e o segundo é nosso, bem brasileiro… mais um escândalo, agora no Senado, com os tais “atos secretos”.

Fora a mídia tradicional, os dois assuntos tomaram conta da blogosfera e de várias outras mídias sociais, o que demonstrou a impressionante capacidade de difusão dessas informações por meio dessas mídias. Do Irã, a imprensa, proibida de entrar no país, tem seus noticiários alimentados por amadores locais que postam seus vídeos no Youtube e por usuários que trocam as suas configurações de conexão a Internet, para que o governo do Irã, que limitou o acesso, não os localize. No sentido contrário, diversos outros usuários fizeram o inverso, ou seja, se fazem passar por usuários no Irã, para confundir o monitoramento por parte do mesmo governo.

No Brasil, protestos e indignação contra os chamados atos secretos são expressos de diversas maneiras pela Internet, com ações que vão desde abaixo assinado em blogs e tags de #forasarney no Twitter. Para o caso iraniano, pessoas do mundo inteiro pintaram seus avatares (imagem do perfil) na cor verde, em sinal de protesto a tirania iraniana.

Lindo. Mas então eu pergunto: e daí? A Internet, por meio das diversas mídias sociais, nos entregou um potencial gigantesco de mobilizar pessoas de diferentes segmentos para lutarem a favor de uma causa. Mas de tão grande potencial, parece que nos esquecemos que o mundo virtual nada mais é do que uma extensão do que acontece no mundo real. Todavia, os protestos ficaram presos nessa esfera, que, por si só, é incapaz de mover uma palha. As mídias sociais somente terão expressão quando os assuntos comentados dentro delas deixarem de ser assuntos e passarem a ser verbo, ação.

Pintar o avatar de verde, escrever comentários em blogs, divulgar uma tag no Twitter para que fique entre os trending topics é excelente, mas, na boa, não servem para nada. Só servem para mostrar que nós sabemos o que está acontecendo e nos importamos, mas que não somos capazes de nos reunir ou escrever uma faixa que seja para realizar algo não virtual, que realmente vá fazer alguma diferença. Me lembro vagamente de um conceito em Teorias de Comunicação, que se chama efeito narcotizante. Efeito narcotizante nada mais é do que isso que vivemos: indignamos-nos, mas permanecemos apáticos diante das inúmeras informações. E assim ficamos até que aconteça outra tragédia aérea ou um “novo” vírus apareça e o assunto passe a ser outro. De quantos escândalos absurdos nós já ficamos revoltados? E desses, em quantos escândalos nós efetivamente fizemos alguma coisa a respeito e não ficamos presos somente a comentários rasos nos elevadores e botecos? Em quantos houve alguma mudança, vinda de nós?

Jogamos fora o potencial de mobilização social promovida por meio das mídias sociais quando enviamos toneladas de alimentos e materiais para o sul do Brasil, no início do ano, para as vítimas das enchentes, mas praticamente ignoramos os nossos compatriotas do nordeste, que sofrem com enchentes tão ou mais violentas. Por que ignoramos? Seria ousado dizer que é porque no primeiro caso houve uma cobertura maciça da grande mídia e, no segundo, a cobertura foi menor? Nem sequer pintamos nossos avatares no Orkut ou Twitter de verde.

Lutamos por liberdade de expressão e culpamos a grande mídia pela má qualidade da programação, mas nos pregamos na televisão para assistir os próximos capítulos de uma criança que é jogada pela janela ou uma jovem que é feita refém em sua casa. Casos impressionantemente tristes, mas que são logo esquecidos à medida que nos saturamos do assunto e o Ibope indica que é hora de mudar de assunto. Sensibilizamos-nos com a tragédia do Voo 447 e acompanhamos as manchetes de que um novo destroço foi encontrado, para logo em seguida outra manchete desmenti-la. Só nos cabe mesmo a solidariedade, pois não há muito que se fazer. Mas e quando o assunto é de interesse público, como no caso do atual escândalo, em que o nosso dinheiro é revertido em mordomias para os nossos excelentíssimos senadores e familiares? Logo nesses casos, em que somos coadjuvantes, nós ignoramos e minimizamos as nossas ações!

Quando será a hora de pararmos de somente reclamar e começarmos a aproveitar o potencial de mobilização social para transformar o país e demonstrar, com ações, a nossa indignação? Como e quando será que usaremos as mesmas mídias sociais, que mobilizaram milhares de pessoas em 26 países para uma gigantesca guerra de travesseiros em locais públicos, para gerar ações pertinentes a mudanças na nossa política? Obviamente estou me referindo ao Brasil, e não ao caso dos protestos no Irã. Temos que pensar numa resposta, rápido, antes que a crise financeira ou gripe suína volte a ocupar as nossas mentes e mais um escândalo acabe em mais uma enjoativa pizza.

This entry was written by Marcus Lemos , posted on quinta-feira junho 25 2009at 10:06 am , filed under Mídias Sociais, web 2.0 and tagged , , , , , , . Bookmark the permalink . Post a comment below or leave a trackback: Trackback URL.

2 Responses to “Mídia Social para a Mobilização Social”

  1. Hola de parte de parejaspareja.es, encontre tu blog navegando por la red buscando elevadores en google. Me parece super interesante la información que tienes en tu blog y sin lugar a dudas regresare a leerlo. Tengo una pregunta, si podria traducir tu blog “Marcus Escreve. Nós Lemos. » Mídia Social para a Mobilização Social” y añadirlos a un de mis blogs en italiano? Y por supuesto con el link direccionando a tu blog. Estare esperando tu respuesta. parejaspareja.es

  2. Olá, Marcus.

    Concordo em gênero, número e grau com seu artigo.
    O que tem acontecido, é o que estamos nomeando de Revolução de Sofá (ou #revolucaodesofa nas discussões via Twitter). Todos são bons na hora de falar, mas na hora de agir, como nas passeatas marcadas do Fora Sarney onde apareceram meia dúzia de pessoas, ninguém faz nada.
    Todo mundo sabe ser revolucionário de casa e isso só serve para tirar a credibilidade das mídias sociais como instrumento de voz do povo.
    Mas não acredito também, que não sair da internet seja culpa apenas dos usuários. Nós somos muito poucos se comparados às outras mídias e infelizmente, para sair desta para as tradicionais a causa ainda tem que estar de acordo com os ideais de seus controladores.

    As mídias sociais podem ainda não ser um grande instrumento de mobilização de massas, mas temos que continuar fazendo barulho, se quisermos que um dia elas venham a ser.

    Ps: A imagem do Sarney no Twitter, foi apenas para responder a pergunta do Tas de que a declaração do Sarney realmente era uma piada.